domingo, 24 de outubro de 2010

Momento político

O atual momento político do Brasil é bastante delicado. O povo é chamado às urnas para decidir em segundo turno que modelo de país quer para os próximos quatro anos.
É delicado pela força da decisão e mais ainda, pelos rumos que as campanhas e debates estão tomando. Os projetos estão sendo substituídos pelas acusações mútuas e pelas fofocas, sobretudo na internet. Os candidatos estão deixando-se levar pelas picuinhas da política com “p” minúsculo e a população despolitizada, entrou na onda da política pequena. Olham mais a pessoa dos candidatos do que as suas idéias e projetos. E quem perde com isto é o próprio povo, pois perde essa aula de cidadania que poderia ser o processo eleitoral.
A situação atual, contudo não é novidade em eleições presidenciais. Na verdade pode ser comparada à de 1989 ou a diversas outras anteriores. Na de 89, quando o país havia recém saído da ditadura militar, com suas instituições fragilizadas e democraticamente imaturas, o candidato das elites, Fernando Collor de Melo, em busca da vitória a qualquer preço, inventou um monte de mentiras a respeito do seu adversário, desestabilizando-o e conseguindo, assim, ser eleito. Felizmente seu governo, afundado num mar de lamas, acabou em impecheament e o país teve a chance de avançar na consciência democrática.
Espero que em 2010 tenhamos um desfecho diferente para que o país cresça e se desenvolva não só no campo econômico, mas também no social e, sobretudo, no respeito à diversidade ideológica.

domingo, 3 de outubro de 2010

Projeto África

Comemorando o Dia da Consciência Negra, trabalhos sobre África foram mostrados numa exposição realizada no dia 19 de novembro no salão do C. E. Olavo Bilac.

Atendendo à solicitação do professor de História os alunos do ensino médio deste colégio, caracterizados com roupas que lembram as vestimentas africanas, expuseram cartazes informativos, vídeos, peças de artesanato e bandeiras dos países africanos e ainda ofereceram aos visitantes uma degustação de comidas típicas de cada país. No palco foram apresentadas músicas e danças africanas e diversos vídeos sobre a vida e a cultura desses povos.O projeto tem por objetivo, não só oferecer um pouco de conhecimento a respeito do continente africano, como também mostrar a contribuição material e cultural que os africanos deram ao povo brasileiro ao longo desses quinhentos anos de história. Eles contribuíram na economia colonial, na língua, na religião, na culinária, e, principalmente, na constituição do povo brasileiro, emprestando a sua alegria, o seu jeito festeiro de ser, a sua ginga e a sua receptividade.

Professor Valdecir Tavares

O professor que odeia o livro

É considerado habilidoso aquele soldado que carrega rapidamente sua arma e em fração de segundos tem o inimigo sob mira certeira. Também é muito apto o trabalhador fabril que ajusta uma peça na velocidade correta, então deslocada na sua direção por uma esteira na linha de montagem. Velocidade e destreza, nesses casos, são essenciais. Essa velocidade e essa destreza, uma vez no campo da leitura, talvez sejam exigidas no e-mail e no twitter. Todavia, valem pouco para os intelectuais que, enfim, se alimentam antes de tudo do livro.

O livro é o campo do intelectual. Não é o campo do estudante que, enfim, é transformado pelos professores, quando muito, no soldado, no trabalhador fabril e no leitor de twitter. O estudante é tirado, pelo professor, da estrada que poderia transformá-lo em um intelectual ou, ao menos, em uma pessoa capaz de autonomia de julgamento. Vítima de pequenos textos em forma de cópia Xerox, o professor tornou-se alguém que perpetua a cultura da pressa e do acúmulo, tornando seu aluno igual a ele próprio, antes um meio leitor que um leitor.

Esse professor é um inapto. Mas o pior é que ele é um produtor de inaptos. Há muito ele caiu no conto de uma das vias da modernidade, a que confundiu rapidez com objetividade. No campo de batalha, o soldado que arma seu fuzil rapidamente e de modo mais veloz ainda tem o inimigo sob mira, recebe o nome de um “atirador objetivo”. De modo menos dramático é o caso do “jogador objetivo”, que finaliza bem e reduz o jogo todo a algo muito chato caso não exista o gol. Essa noção de objetividade desliza erradamente para a atividade do leitor e, então, qualifica o que é o “leitor objetivo”. Este, desse modo, é o que “vai direto ao ponto” no texto e não sucumbe às diversas possibilidades interpretativas. O que deveria ser uma virtude do bom leitor, que é justamente a capacidade de sucumbir às diversas possibilidades interpretativas, indo e vindo no texto, parando para repensar e fazer conexões próprias, agora é o comportamento condenado.

Nessa cultura que a filósofa Olgária Matos chama de o “vamos direto ao ponto”, as palavras subjetivo e objetivo perdem sua melhor significação. Subjetivo não é mais próximo de reflexivo e, sim, de confuso e lerdo. Objetivo continua a ser quase sinônimo de verdadeiro, mas não pela sua qualidade de independência e, sim, pela sua simplicidade e rapidez. Essa confusão de conceitos que criou o leitor de nossos tempos, o leitor não intelectual, é comemorada então pela universidade que abriga o professor inapto.

Esse professor começou sua carreira sem perceber que iria se tornar o que se tornou. Ele não se matriculou em um curso para ser imbecil, é claro. Mas ele não foi suficientemente esperto para escapar da tarefa que ganhou nos primeiros dias de aula, talvez bem antes da universidade, tarefa esta que ele, depois, passou a repetir com seus alunos candidatos a aleijões mentais. Foi lhe dado, logo no início de sua vida escolar, antes a tarefa de resumir textos e colocar “as idéias principais” que a tarefa de compreender o texto e expandi-lo por meio da imaginação, criação e busca de erudição. Assim, de resumo em resumo, no afã da atividade de tornar tudo menor, mais rápido e curto, ele acabou encurtando, verdadeiramente, sua inteligência. Ficou curto mentalmente. Nada lê para criar. Tudo lê para fichar. Até seu mestrado e doutorado foi feito assim, por meio de “fichamentos”. Ele até chegou a ler um manual de metodologia científica que aconselhava o fichamento! Ele se tornou, assim, uma pessoa limitada se sem a menor idéia do que é ser um leitor. Ganhou um “Dr” na frente do nome, que o legitimou nessa atividade que ele acredita que se encaixa na universidade perfeitamente. Exibe esse seu hábito de pegar atalhos, que o torna um símio, e é assim que se comporta: exibe seu método de “fichamento”, resumo, e leitura do crime do Xerox como o macaco exibe o pênis quando vê a fêmea humana.

Paro por aqui, pois já ultrapassei o tanto de linhas que os alunos desse professor conseguem ler. Eu disse os alunos, ele mesmo, o dito professor, parou bem antes, no segundo parágrafo. Esse tipo de professor se tornou um ejaculador precoce. Ele não leva adiante nada que ultrapasse uma lauda, e mesmo assim, às vezes não termina nem mesmo uma lauda uma vez que, precisando de dicionário, não o apanha na estante e tem preguiça de consultar o da Internet, aberta na frente dele.

© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ.
17/07/2010